Somos todos Alemão?

Data original da publicação: 05/04/2015

“Ele me falava que tinha um futuro bonito pela frente. Agora, não tem mais”. Essa é a frase que fica voltando à minha mente todas as vezes que penso no menino Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, assassinado por um policial militar no Complexo do Alemão na última quinta-feira.

Essa frase foi dita aos prantos pela mãe, Teresinha Maria de Jesus Ferreira, que lamentava não poder mais pagar os cursos de inglês e informática que o filho tanto queria. O que me parece pelos relatos da mãe é que Eduardo era uma criança doce, amorosa e muito dedicada à escola. Mas, antes de tudo, era uma criança. Uma criança que levou um tiro de fuzil na cabeça na porta de casa, porque estava no lugar errado, tinha a cor errada e pertencia a uma classe social errada.

Assim como Eduardo, muitas outras crianças do Alemão acreditam que vão ter um futuro bonito e, de repente, não têm sequer futuro. Tudo porque as suas vidas valem menos, porque a sua carne é a mais barata do mercado, porque as suas paixões ou frustrações não fazem a menor diferença, porque o sangue que jorra da sua morte serve mais para engrossar os números do que para mobilizar de fato as esferas sociais.

Como se a morte do Eduardo não fosse suficientemente dolorosa, temos que assistir à boçalidade de pessoas compartilhando mentiras e declarações preconceituosas nas redes sociais. Para quem não sabe, a foto de uma criança segurando uma arma foi compartilhada milhares de vezes no Facebook, em uma tentativa de associar o garoto ao tráfico de drogas e, assim, justificar a ação da PM. Em primeiro lugar, não era o Eduardo. Em segundo – e aqui eu julgo mais preocupante – e se fosse? Ele mereceria tomar um tiro na cabeça aos 10 anos de idade?

O que a sociedade faz com essas crianças é cruel. Não se oferece educação, não se oferece saúde, não se oferece estrutura familiar. Tudo o que se tem é pobreza e porrada de todos os lados. Daí essas crianças que, assim como o Eduardo, têm a esperança de um futuro bonito, vão ver amanhã ou depois que para elas a vida é bem mais difícil. E vão ser apresentadas a um caminho perigoso, mas que parece ser o único que vai garantir o trocado do dia.

E então, o que nós vamos fazer? Vamos dizer que cada um escolhe o seu destino, que as pessoas plantam o que colhem, que bandido bom é bandido morto. Mas não paramos para pensar que o bandido de hoje é o menino que foi chamado de vagabundo antes mesmo de saber o significado da palavra e viu o irmão, o primo, o amigo morrerem vítimas de bala perdida – perdida?

Vamos continuar aplaudindo o trabalho de “pacificação” que as UPPs vêm desenvolvendo nas favelas do Rio de Janeiro desde 2008, enaltecendo a covardia de uma força policial classista e racista que mata pretos e pobres – chamados indiscriminadamente de marginais – sob a alcunha de promotores da paz. Vamos espalhar a hashtag “#somostodosalemao” nas nossas redes sociais e nem saber do que se trata daqui a um mês, assim como aconteceu com Cláudia Ferreira, arrastada por 350 metros por um carro da PM no Rio, ou com Amarildo de Souza, detido por policiais na favela da Rocinha e desaparecido desde 2013. E só.

Se somos mesmo Alemão, temos que fazer alguma coisa pela paz para além da classe média branca. Temos que nos mobilizar para que outras crianças como o Eduardo possam realmente sonhar com um futuro bonito. Porque, definitivamente, nós não estamos indo bem no combate à violência.

1428077169_424197_1428082318_noticia_normal
Foto: Renato Moura (Voz das Comunidades)
Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s