8 de março não é celebração

Data original da publicação: 08/03/2017

Vocês distribuem flores nos comerciais de TV, mas abafam nossas vozes quando tentamos nos posicionar numa discussão.

Vocês homenageiam as mães de família, guerreiras, que se desdobram em cinco pra dar conta de tudo. Mas são incapazes de aliviar o fardo delas fazendo a sua parte.

Vocês mandam parabéns nos grupos do whatsapp, mas nos assediam no trabalho, no supermercado, na escola, na igreja.

Vocês adoram dizer o quanto somos fortes e versáteis, mas invisibilizam tudo o que nos diz respeito nos cenários político e social.

Vocês enchem o Facebook de mensagens de carinho “às mulheres da sua vida”, mas quando saem na rua se sentem no direito de olhar pra mulher preta como se ela fosse um pedaço de carne. Também perguntam pros casais de lésbicas se “pode participar”.

Vocês endeusam o dom sublime das mulheres de gerar um filho, mas abandonam sua cria na primeira oportunidade. Ah, e abortar não pode. O feto é vida dentro da barriga, depois que nasce é problema da mãe.

Nós somos caladas, agredidas, hipersexualizadas, espancadas, estupradas e mortas e vocês dizem que feminismo é mimimi. Vocês acham que uma homenagem hipócrita no dia 8 de março vai redimir a história marcada pela violência de gênero, mas como canta a deusa Elza Soares e a gente sabe bem, “meu choro não é nada além de carnaval”.

Mas eu tenho uma coisa a dizer, nós somos muitas, e somos múltiplas também. Pretas, brancas, gordas, magras, cis e TRANS. Vamos gostar de quem a gente quiser. Nós somos ateias, cristãs, candomblecistas e budistas. Usamos burca, calça jeans, kimono, turbante, biquíni ou nosso próprio corpo. E nenhum deles estupra. O único que estupra é outro corpo. Filho do patriarcado. É por isso que a gente luta. E por mais que vocês trabalhem duro pra nos dividir, estamos juntas. E vamos seguir lutando, até que todas sejamos livres. Nós por nós!